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O Lendário Sérgio Zimba

O homem que desenhou sorrisos e ajudou uma geração a sonhar

Camilo Amarcy··4 min de leitura
O Lendário Sérgio Zimba

Há pessoas que passam pela nossa vida através de grandes discursos, cargos importantes ou feitos cuidadosamente registados. Outras entram silenciosamente, com um lápis na mão, uma ideia na cabeça e a capacidade rara de transformar uma folha de papel num lugar onde milhares de pessoas conseguem rir, pensar e reconhecer-se. Sérgio Zimba pertence a essa segunda categoria. Para muitos moçambicanos, o seu desenho nunca foi apenas desenho. Era comentário, inteligência, humor, criatividade e, muitas vezes, uma razão adicional para abrir o jornal.

Mais de vinte anos depois de o conhecer, reencontrar Sérgio provoca uma sensação curiosa: parece que o relógio decidiu respeitá-lo. O sorriso continua presente, a energia continua leve e aquele espírito criativo parece conservar a mesma juventude dos primeiros encontros. Talvez exista aí uma lição que nenhum laboratório conseguiu transformar em cápsula: quem ri, cria, imagina e continua apaixonado pelo que faz encontra uma maneira diferente de envelhecer.


1. A Caricatura

Houve um tempo em que muitos jovens não começavam a leitura de um jornal pela política, pelos mercados financeiros ou pelas grandes análises nacionais. Procuravam primeiro aquilo que lhes despertava curiosidade. E, para uma geração, as caricaturas e os desenhos de Sérgio Zimba cumpriram precisamente essa missão. Havia expectativa em descobrir o que ele tinha imaginado, qual seria a piada, que personagem apareceria e de que forma uma situação conhecida seria transformada através do traço. O desenho funcionava como uma porta de entrada para a leitura.

Isso pode parecer pequeno até percebermos o que aconteceu depois. Alguns daqueles jovens tornaram-se gestores, empresários, directores e CEOs. Cresceram, assumiram responsabilidades e passaram a ler balanços, estratégias e relatórios complexos, mas houve uma época em que a motivação para pegar num jornal podia começar simplesmente pela vontade de encontrar uma caricatura de Sérgio. Essa talvez seja uma das maiores conquistas de um artista: fazer alguém entrar pela arte e, quase sem perceber, aproximá-lo do conhecimento.


2. O Lápis

Existe uma tendência perigosa para dizermos às crianças que desenhar é apenas passatempo. Incentivamos matemática, engenharia, economia e medicina porque conseguimos visualizar rapidamente as profissões associadas a essas áreas, enquanto tratamos o jovem que passa horas com lápis e papel como alguém que um dia terá de abandonar aquilo e procurar uma ocupação “a sério”. Sérgio Zimba recorda-nos exactamente o contrário. Um lápis pode construir carreira, identidade, memória cultural e influência.

Talvez exista hoje, numa escola moçambicana, uma menina a desenhar escondida no último caderno ou um rapaz que recebe reprimendas porque prefere criar personagens durante os intervalos. A mensagem que histórias como a de Sérgio deixam para eles é poderosa: não deitem fora esse talento. Estudem, aprendam, desenvolvam técnica, observem o mundo e experimentem novas ferramentas, mas protejam aquilo que vos faz criar. Nem todos os sonhos precisam de usar gravata para merecer futuro.


3. O Elixir

Conheço Sérgio há mais de vinte anos e há algo que continua a impressionar-me: o tempo passou, mas parece não ter levado consigo aquilo que realmente importa. A boa disposição permanece, o sorriso chega rapidamente e existe nele uma leveza que faz parecer que estamos diante da mesma energia de muitos anos atrás. Brinco dizendo que Sérgio aparentemente encontrou o elixir da juventude, mas talvez a explicação seja mais interessante do que qualquer fórmula secreta.

Criar obriga-nos a continuar curiosos. Rir impede que transformemos cada problema numa tragédia permanente. Imaginar força-nos a olhar para uma realidade conhecida e perguntar se poderia existir outra interpretação. Talvez seja justamente essa combinação de humor, boas vibes, curiosidade e criatividade elevada que ajude certas pessoas a permanecer jovens muito depois de os calendários dizerem o contrário. Sérgio lembra-nos que envelhecer é inevitável, mas deixar morrer a capacidade de brincar com ideias é uma escolha.


4. O Artista

A maior homenagem que podemos prestar a um artista não é apenas aplaudir aquilo que ele fez. É permitir que aquilo que ele fez desperte alguma coisa em nós. Ler mais. Desenhar novamente. Recuperar um projecto esquecido. Voltar a escrever. Comprar um caderno. Mostrar um desenho que permaneceu anos escondido. Inscrever-se naquele curso. Criar aquela personagem. Tentar outra vez. O talento raramente desaparece de repente; normalmente vai sendo abandonado aos poucos.

Por isso, quando um jovem olhar para Sérgio Zimba, espero que não veja apenas um cartunista moçambicano extraordinário. Espero que veja a prova de que é possível atravessar décadas sem abandonar a criança curiosa que um dia decidiu criar alguma coisa simplesmente porque aquilo lhe dava alegria. O mundo continuará a precisar de engenheiros, médicos, economistas e gestores, mas também continuará desesperadamente a precisar de artistas capazes de nos fazer rir, pensar e olhar para a realidade por outro ângulo. Nunca perca o sonho do artista. Porque, às vezes, o desenho que hoje parece apenas um rabisco pode ser exactamente aquilo que amanhã fará alguém abrir um jornal, descobrir o mundo e começar a sonhar.


Na fotografia: Camilo Amarcy e Sérgio Zimba.

Há encontros que servem para recordar o passado. Outros recordam-nos aquilo que nunca deveríamos ter deixado para trás. Encontrar Sérgio Zimba novamente foi também isso: a confirmação de que podemos crescer, assumir responsabilidades, conquistar posições e atravessar décadas sem entregar ao tempo a melhor parte de nós, a capacidade de imaginar.

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