Há pessoas que passam pela nossa vida através de grandes discursos, cargos importantes ou feitos cuidadosamente registados. Outras entram silenciosamente, com um lápis na mão, uma ideia na cabeça e a capacidade rara de transformar uma folha de papel num lugar onde milhares de pessoas conseguem rir, pensar e reconhecer-se. Sérgio Zimba pertence a essa segunda categoria. Para muitos moçambicanos, o seu desenho nunca foi apenas desenho. Era comentário, inteligência, humor, criatividade e, muitas vezes, uma razão adicional para abrir o jornal.
Mais de vinte anos depois de o conhecer, reencontrar Sérgio provoca uma sensação curiosa: parece que o relógio decidiu respeitá-lo. O sorriso continua presente, a energia continua leve e aquele espírito criativo parece conservar a mesma juventude dos primeiros encontros. Talvez exista aí uma lição que nenhum laboratório conseguiu transformar em cápsula: quem ri, cria, imagina e continua apaixonado pelo que faz encontra uma maneira diferente de envelhecer.
1. A Caricatura
Houve um tempo em que muitos jovens não começavam a leitura de um jornal pela política, pelos mercados financeiros ou pelas grandes análises nacionais. Procuravam primeiro aquilo que lhes despertava curiosidade. E, para uma geração, as caricaturas e os desenhos de Sérgio Zimba cumpriram precisamente essa missão. Havia expectativa em descobrir o que ele tinha imaginado, qual seria a piada, que personagem apareceria e de que forma uma situação conhecida seria transformada através do traço. O desenho funcionava como uma porta de entrada para a leitura.
Isso pode parecer pequeno até percebermos o que aconteceu depois. Alguns daqueles jovens tornaram-se gestores, empresários, directores e CEOs. Cresceram, assumiram responsabilidades e passaram a ler balanços, estratégias e relatórios complexos, mas houve uma época em que a motivação para pegar num jornal podia começar simplesmente pela vontade de encontrar uma caricatura de Sérgio. Essa talvez seja uma das maiores conquistas de um artista: fazer alguém entrar pela arte e, quase sem perceber, aproximá-lo do conhecimento.
2. O Lápis
Existe uma tendência perigosa para dizermos às crianças que desenhar é apenas passatempo. Incentivamos matemática, engenharia, economia e medicina porque conseguimos visualizar rapidamente as profissões associadas a essas áreas, enquanto tratamos o jovem que passa horas com lápis e papel como alguém que um dia terá de abandonar aquilo e procurar uma ocupação “a sério”. Sérgio Zimba recorda-nos exactamente o contrário. Um lápis pode construir carreira, identidade, memória cultural e influência.
Talvez exista hoje, numa escola moçambicana, uma menina a desenhar escondida no último caderno ou um rapaz que recebe reprimendas porque prefere criar personagens durante os intervalos. A mensagem que histórias como a de Sérgio deixam para eles é poderosa: não deitem fora esse talento. Estudem, aprendam, desenvolvam técnica, observem o mundo e experimentem novas ferramentas, mas protejam aquilo que vos faz criar. Nem todos os sonhos precisam de usar gravata para merecer futuro.
3. O Elixir
Conheço Sérgio há mais de vinte anos e há algo que continua a impressionar-me: o tempo passou, mas parece não ter levado consigo aquilo que realmente importa. A boa disposição permanece, o sorriso chega rapidamente e existe nele uma leveza que faz parecer que estamos diante da mesma energia de muitos anos atrás. Brinco dizendo que Sérgio aparentemente encontrou o elixir da juventude, mas talvez a explicação seja mais interessante do que qualquer fórmula secreta.
Criar obriga-nos a continuar curiosos. Rir impede que transformemos cada problema numa tragédia permanente. Imaginar força-nos a olhar para uma realidade conhecida e perguntar se poderia existir outra interpretação. Talvez seja justamente essa combinação de humor, boas vibes, curiosidade e criatividade elevada que ajude certas pessoas a permanecer jovens muito depois de os calendários dizerem o contrário. Sérgio lembra-nos que envelhecer é inevitável, mas deixar morrer a capacidade de brincar com ideias é uma escolha.
4. O Artista
A maior homenagem que podemos prestar a um artista não é apenas aplaudir aquilo que ele fez. É permitir que aquilo que ele fez desperte alguma coisa em nós. Ler mais. Desenhar novamente. Recuperar um projecto esquecido. Voltar a escrever. Comprar um caderno. Mostrar um desenho que permaneceu anos escondido. Inscrever-se naquele curso. Criar aquela personagem. Tentar outra vez. O talento raramente desaparece de repente; normalmente vai sendo abandonado aos poucos.
Por isso, quando um jovem olhar para Sérgio Zimba, espero que não veja apenas um cartunista moçambicano extraordinário. Espero que veja a prova de que é possível atravessar décadas sem abandonar a criança curiosa que um dia decidiu criar alguma coisa simplesmente porque aquilo lhe dava alegria. O mundo continuará a precisar de engenheiros, médicos, economistas e gestores, mas também continuará desesperadamente a precisar de artistas capazes de nos fazer rir, pensar e olhar para a realidade por outro ângulo. Nunca perca o sonho do artista. Porque, às vezes, o desenho que hoje parece apenas um rabisco pode ser exactamente aquilo que amanhã fará alguém abrir um jornal, descobrir o mundo e começar a sonhar.
Na fotografia: Camilo Amarcy e Sérgio Zimba.
Há encontros que servem para recordar o passado. Outros recordam-nos aquilo que nunca deveríamos ter deixado para trás. Encontrar Sérgio Zimba novamente foi também isso: a confirmação de que podemos crescer, assumir responsabilidades, conquistar posições e atravessar décadas sem entregar ao tempo a melhor parte de nós, a capacidade de imaginar.








